Passamos três dias na Expo + Indústria 2026, em Pinhais, no Paraná, e voltamos com cinco coisas na cabeça. Algumas confirmaram o que já pensávamos sobre gestão industrial. Outras nos surpreenderam de verdade.
Foi a primeira edição da feira, sediada na Expotrade, com realização da FIEP em correalização com SESI, SENAI e IEL. O evento reuniu representantes dos 27 estados brasileiros, média de cerca de 5 mil visitantes por dia e quase 100 expositores. A próxima edição já está confirmada para 2028. Ao longo dos três dias, acompanhamos cerca de 22 palestras, entre elas casos de manutenção preditiva, discussões sobre automação e IA, engenharia de processos e o futuro do trabalho na indústria.
O recado mais repetido do evento foi simples: tecnologia não corrige processo desorganizado.
Isso não veio como crítica à inovação, longe disso. A feira mostrou a indústria avançando de verdade em inteligência artificial, sensores, integração de sistemas e impressão 3D. Mas também mostrou, em quase toda conversa de estande, que o ganho real só aparece quando a base já está estável e rastreável. É exatamente nesse ponto que a nossa experiência de campo, construída ao longo de 30 anos dentro de plantas industriais, conversa com o que vimos na feira.
Tem sensor para tudo. Mas quem trata o alerta?
Um dos cases mais comentados foi o de uma siderúrgica que instalou sensores de vibração, temperatura e campo magnético em 15 ativos críticos. Pelos números que a empresa apresentou no palco, a iniciativa eliminou cerca de 40 horas semanais de rotas manuais de inspeção. Não validamos esse número de forma independente, mas a lógica por trás da tecnologia é sólida e conhecida.
A gente saiu do estande pensando nas plantas onde já encontramos exatamente esse tipo de sensor instalado, em dezenas de ativos, com o alerta chegando certinho num painel, só que num painel que ninguém mais olhava. Não era falta de tecnologia. Era falta de rotina para transformar aquele alerta em ordem de serviço, com dono, prazo e critério de prioridade.
O sensor resolve a coleta. Quem decide o que fazer com a informação continua sendo o time de manutenção.
Isso conversa direto com o que vemos em projetos de gestão de manutenção industrial com modelos práticos: a empresa investe no monitoramento, mas ainda não tem processo claro para decidir quem analisa o alerta, como prioriza, quando intervém e como registra a ação tomada depois. Sem esse encadeamento, o investimento em sensor rende bem menos do que poderia.
Garbage in, garbage out
Ouvimos essa expressão em quase todo estande de tecnologia da feira. Quem melhor resumiu a ideia foi o John Carrier, do MIT Sloan: primeiro estabiliza o processo, depois entende como ele funciona de verdade, e só então automatiza.
Ficamos satisfeitos de ouvir isso vindo de um palco, porque é literalmente a discussão que temos com cliente há três décadas. Já vimos sistema de manutenção entrar em planta que não tinha rotina nenhuma antes. Em poucos meses eram milhares de ordens abertas, praticamente nenhuma fechada, e o time do chão de fábrica com menos confiança no processo do que tinha antes da digitalização chegar.
Colocar tecnologia em cima de bagunça costuma gerar bagunça mais rápida, não menos.
Esse debate se conecta com dois temas que trabalhamos de forma recorrente: o fluxo de processos industriais e suas falhas mais comuns, e a engenharia de processos para ganhos rápidos. Em ambos os casos, o raciocínio se repete: antes de digitalizar, é preciso enxergar como a rotina realmente acontece, não como ela está desenhada no papel.
Pesquisas acadêmicas também mostram esse padrão. Um estudo sobre desafios na coleta de dados para melhoria de processos industriais aponta que muitas empresas brasileiras ainda enfrentam baixa maturidade no registro e no rastreio de indicadores, o que compromete tanto o planejamento de manutenção quanto as iniciativas de melhoria contínua. A feira confirmou isso na prática, mesmo sem citar a pesquisa.
A peça de reposição virou arquivo
Isso chamou nossa atenção de verdade: das indústrias que visitamos nos estandes, praticamente todas já imprimem peça de desgaste em 3D. Quebrou, o scanner lê, a impressora entrega em algumas horas, sem depender de fornecedor externo.
O que quase ninguém comentava era a parte menos glamorosa que vem antes: decidir quais itens realmente fazem sentido nessa biblioteca digital (peça de desgaste, sem função estrutural, sem exigência de certificação específica) e o que isso muda na política de estoque da planta. Numa das operações que acompanhamos, essa decisão mal feita gerou o problema oposto ao que a tecnologia prometia: peça crítica sendo impressa sem validação adequada, e peça simples continuando a depender de fornecedor por puro hábito.
A impressora é a parte visível. A decisão de gestão sobre o que entra na biblioteca é o que faz ela valer a pena.
A IA está indo morar dentro do ERP
Em vez de aparecer como ferramenta separada, a inteligência artificial está surgindo cada vez mais embutida nos sistemas de gestão que a fábrica já usa no dia a dia. Faz sentido, e é o caminho que praticamente todo fornecedor de software mostrou na feira.
Mas nós estamos construindo iniciativas de IA em cima de dado de manutenção real, e sabemos exatamente onde esse tipo de projeto trava na prática: ordem fechada como “reparado” sem mais detalhe, código de falha genérico escolhido só pra fechar a tela mais rápido, campo de causa em branco. Quando o histórico é assim, não existe modelo de IA capaz de aprender algo útil dali.
Antes de comprar a IA que já vem dentro do sistema, vale olhar com cuidado o que o time está de fato registrando nele hoje.
Esse ponto também tem um lado humano que não pode ser ignorado. Uma dissertação da FEARP-USP sobre ocupações altamente automatizáveis no Brasil mostra que quase metade dos trabalhadores brasileiros está em funções com alto potencial de automação, com relação maior a escolaridade média ou baixa. Isso reforça algo que defendemos no conteúdo sobre transformação digital voltada às pessoas: a conversa não pode começar pela ferramenta. Precisa começar por quem vai interpretar a exceção e decidir o próximo passo quando o sistema não souber o que fazer.
Marketing e vendas também levaram recado
A feira não tratou só de chão de fábrica. Teve espaço para um tema que a indústria às vezes trata como paralelo: marketing e vendas. E o recado foi direto, comercial e marketing precisam falar a mesma língua.
No ambiente industrial B2B, o comprador tem medo real de errar no investimento, de gerar parada, de comprometer orçamento com algo que não se sustente depois. Discurso genérico não convence esse tipo de decisor. O que reduz a barreira é dado concreto, caso de uso bem explicado e clareza de impacto operacional. É basicamente o mesmo princípio que aplicamos quando apresentamos um diagnóstico a um cliente: a narrativa não parte da ferramenta, parte do problema encontrado.
Sua planta está pronta para isso?
Depois desses três dias, ficamos com quatro perguntas que já fazem parte de todo diagnóstico que conduzimos:
- Os indicadores existem e a operação realmente acredita neles?
- O backlog de manutenção é conhecido e está sob controle?
- O histórico de falha serve para análise, ou só para consulta?
- As rotinas continuam acontecendo quando a pessoa-chave está de férias?
Se duas dessas respostas forem não, a tecnologia mais avançada da feira vai amplificar o que já está errado antes de gerar qualquer ganho.
Conclusão
Voltamos do evento com a mesma convicção que já tínhamos antes de entrar. A tecnologia evoluiu muito, e a indústria que já tem processo estável vai aproveitar isso rápido. As outras vão gastar dinheiro para amplificar um problema antigo.
Antes da automação, vem o processo.
Há 30 anos ajudamos plantas industriais a chegar nesse ponto de partida. Se alguma das quatro perguntas acima te deixou em dúvida, é exatamente por aí que a gente começa. Fale com a nossa equipe para entender como um diagnóstico de maturidade operacional pode se aplicar à realidade da sua indústria.
Perguntas frequentes
O que é a Expo + Indústria 2026?
A Expo + Indústria 2026 foi a primeira edição de uma feira industrial realizada em Pinhais, no Paraná, na sede da Expotrade, entre 25 e 27 de agosto. O evento reuniu representantes dos 27 estados, quase 100 expositores e média de cerca de 5 mil visitantes por dia.
Como a WC MAC participou do evento?
Estivemos presentes acompanhando a programação técnica e institucional da feira ao longo dos três dias, assistindo cerca de 22 palestras sobre manutenção preditiva, automação, inteligência artificial, engenharia de processos e futuro do trabalho na indústria.
Quais os principais aprendizados?
A prioridade do processo antes da automação, o valor da engenharia de manutenção por trás da tecnologia preditiva, a entrada natural da IA em softwares e ERPs (condicionada à qualidade do registro de dados), a expansão da impressão 3D como política de gestão de sobressalentes, e a necessidade de alinhar marketing e comercial no setor industrial B2B.
Vale a pena visitar a Expo + Indústria?
Sim, especialmente para quem busca atualização prática sobre indústria, manutenção, gestão e digitalização, com cases aplicáveis e discussões maduras sobre tomada de decisão operacional.


